Comércio entre Brasil e Estados Unidos enfrenta retração nas exportações e saldo negativo em 2026
28 de setembro de 2026
As relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos atravessaram um período de desaceleração nos oito primeiros meses de 2026. Entre janeiro e agosto, as exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano somaram US$ 24,1 bilhões, uma redução de 9,7% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.
Com a diminuição das vendas externas e o avanço das importações, o Brasil encerrou o período com déficit de US$ 3,2 bilhões no comércio bilateral. Os dados integram o Monitor do Comércio Brasil–EUA, elaborado pela Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham Brasil).
Barreiras comerciais afetam diferentes setores
Parte desse desempenho está relacionada ao aumento das restrições aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. As medidas adotadas pelo governo norte-americano em julho estabeleceram cobranças adicionais entre 25% e 37,5% sobre mercadorias de diferentes setores.
Ainda assim, as tarifas não explicam sozinhas a redução dos embarques. Os produtos diretamente alcançados pelas sobretaxas apresentaram queda de 11,4%, enquanto as mercadorias que permaneceram fora das novas medidas também registraram retração de 8,3%.
Esse comportamento indica que outros elementos contribuíram para o resultado, incluindo as oscilações dos preços internacionais, a demanda norte-americana e o ambiente de incerteza nas relações comerciais.
Indústria extrativa e agronegócio registram as maiores quedas
A indústria extrativa apresentou a retração mais acentuada entre os setores analisados. As exportações do segmento para os Estados Unidos caíram 28,9% entre janeiro e agosto.
Na agropecuária, a redução chegou a 26,7%. Já a indústria de transformação, responsável pela maior parcela das exportações brasileiras ao mercado norte-americano, encerrou o período com recuo de 4,9%.
Embora proporcionalmente menor, a queda da indústria de transformação possui impacto relevante sobre o resultado total devido à participação do setor na pauta exportadora brasileira.
Receita avança em agosto, mesmo com redução do volume
O desempenho de agosto apresentou um cenário diferente do observado no acumulado do ano. O valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceu 12,1% no mês, apesar de o volume físico das mercadorias embarcadas ter recuado 17,3%.
A diferença entre faturamento e quantidade indica que o aumento dos preços ajudou a sustentar a receita das exportações. A maior participação de produtos com valor agregado mais elevado também contribuiu para esse resultado.
Entre os destaques do mês estão as aeronaves e as carnes. O setor aeronáutico, que não foi incluído entre os segmentos afetados pelas sobretaxas mencionadas no levantamento, apresentou crescimento de 18,2% em receita.
No acumulado de 2026, as vendas de aeronaves e equipamentos aeroespaciais brasileiros aos Estados Unidos já ultrapassaram US$ 1,8 bilhão.
Empresas brasileiras ampliam destinos comerciais
Diante da redução das vendas ao mercado norte-americano, empresas exportadoras passaram a fortalecer sua atuação em outros países. As exportações brasileiras para um conjunto de 17 mercados cresceram e chegaram a US$ 19,3 bilhões.
Segundo o levantamento, esse valor corresponde a aproximadamente 7,5 vezes a perda registrada nas vendas para os Estados Unidos.
O movimento pode ser observado especialmente na indústria de transformação. Enquanto os embarques do setor destinados aos Estados Unidos caíram 4,9%, as exportações para os demais mercados avançaram 6,6% no mesmo período.
Diversificação ganha importância no planejamento das empresas
Os Estados Unidos permanecem como um dos principais parceiros comerciais do Brasil e continuam sendo um mercado estratégico, sobretudo para produtos industrializados e de maior valor agregado.
Entretanto, o cenário reforça a importância de diversificar destinos, fornecedores e rotas logísticas. A concentração das operações em um único mercado pode ampliar a exposição das empresas a mudanças tarifárias, alterações regulatórias e oscilações de demanda.
Nos próximos meses, exportadores e importadores deverão acompanhar a evolução das tarifas norte-americanas, o comportamento dos custos logísticos e as possíveis mudanças nas negociações comerciais entre os dois países.
Mais do que buscar mercados alternativos, será necessário avaliar a competitividade de cada operação, revisar custos e desenvolver estratégias capazes de reduzir riscos sem comprometer a presença das empresas brasileiras nos Estados Unidos.
Fontes das informações: Monitor do Comércio Brasil–EUA, da Amcham Brasil, e dados divulgados pelo Portal IN.