Corredores marítimos verdes podem transformar exportações de celulose entre Brasil e Europa

13 de julho de 2026

Na logística internacional, a busca por operações mais sustentáveis deixou de ser apenas uma tendência e passou a ocupar o centro das estratégias globais. Um novo estudo apresentado em conjunto pelo Brasil, Noruega e Holanda, aponta para a potencial criação dos primeiros corredores marítimos verdes em águas profundas conectando a América do Sul ao mercado europeu – incluindo as rotas para a exportação de celulose brasileira.

As novas regras da Organização Marítima Internacional (IMO), estabelecem agressivas metas de descarbonização, exigindo cortes de emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa emitidos pela queima de combustíveis marítimos, como o óleo bunker), e uma potencial taxa global de carbono. A medida deve encarecer os custos de frete marítimo em rotas de longa distância, afetando a competitividade das exportações brasileiras.

Essa iniciativa simboliza um dos projetos mais ambiciosos de descarbonização do transporte marítimo internacional.

O que são corredores marítimos verdes?

Os chamados “corredores marítimos verdes” são rotas internacionais que buscam reduzir de forma drástica as emissões de gases de efeito estufa por meio da utilização de combustíveis renováveis, novas tecnologias de propulsão e infraestrutura portuária adaptada à transição energética.

Na prática, a proposta envolve muito mais do que trocar o combustível dos navios.

Para que o chamado “corredor verde” funcione, é necessário a integração de armadores, portos, operadores logísticos, exportadores, governos e até mesmo dos produtores de energia em uma estrutura coordenada e capaz de facilitar operações de baixa emissão em toda a cadeia marítima.

O conceito vem ganhando força internacionalmente devido às metas globais de descarbonização e às novas exigências regulatórias do setor marítimo. 

O estudo que conecta Brasil, Noruega e Holanda

Nascido a partir de um Memorando de Entendimento (MoU) firmado entre o Brasil e a Noruega em 2025, com adesão da Holanda em 2026, o levantamento foi desenvolvido pela consultoria norueguesa DNV, por solicitação do Conselho de Pesquisa da Noruega, e é resultado de mais de um ano de cooperação entre os três países.

De acordo com o estudo, apenas em 2023, o transporte marítimo entre Brasil e Europa gerou aproximadamente 4,7 milhões de toneladas de CO₂ equivalente apenas em 2023. Diante deste cenário, se vê necessário ampliar a necessidade de soluções logísticas mais sustentáveis e eficientes nas operações internacionais, a fim de reduzir a pegada de carbono. 

Celulose está entre as cargas estratégicas da iniciativa

Um dos pontos que mais chamam atenção é o destaque dado às operações ligadas à exportação de celulose.

Nas rotas analisadas entre Brasil e Noruega, cerca de 77% das emissões identificadas estão associadas a navios graneleiros que transportam commodities como soja, minério de ferro e celulose. 

Isso coloca o setor de papel e celulose entre os principais candidatos a participar dos futuros corredores verdes, especialmente considerando a crescente pressão de mercados europeus por cadeias produtivas mais sustentáveis e alinhadas às metas climáticas internacionais. 

As rotas consideradas prioritárias

O estudo identificou três corredores considerados estratégicos para a implementação inicial do projeto.

Vila do Conde (PA) – Karmøy (Noruega)

A principal rota analisada conecta o porto paraense de Vila do Conde ao porto de Karmøy, na Noruega. Sozinha, ela representa cerca de 66% das emissões marítimas bilaterais entre os dois países. 

Santos – Rotterdam

Outra rota considerada prioritária liga o Porto de Santos ao Porto de Rotterdam, maior complexo portuário da Europa e uma das principais portas de entrada para mercadorias destinadas ao continente europeu. 

Pecém – Rotterdam

O terceiro corredor conecta o Porto do Pecém, no Ceará, à Holanda e está diretamente associado a futuras exportações de hidrogênio verde, amônia verde e produtos industriais de baixa emissão. 

Quais combustíveis podem viabilizar essa transformação?

O estudo avaliou três alternativas para substituir os combustíveis fósseis utilizados atualmente na navegação:

  • biodiesel (FAME); 
  • amônia verde; 
  • metanol verde. 

O biodiesel aparece como a solução mais imediata, principalmente porque pode ser utilizado em embarcações existentes sem grandes adaptações estruturais. Já a amônia verde e o metanol verde exigem investimentos mais robustos em motores, navios e infraestrutura portuária. 

A pressão regulatória está acelerando a mudança

Grande parte desse movimento é impulsionada pelas novas metas da Organização Marítima Internacional (IMO).

O novo marco regulatório prevê penalização financeira para embarcações que não cumprirem metas progressivas de redução de emissões, criando incentivos para que armadores e operadores acelerem a adoção de combustíveis renováveis. 

Esse cenário tende a influenciar diretamente decisões de investimento em toda a cadeia logística global, desde a construção de novos navios até a modernização de portos e terminais estratégicos. 

O Brasil pode se tornar protagonista nessa transição

O estudo destaca que o Brasil possui características consideradas altamente favoráveis para o desenvolvimento dos corredores verdes.

Entre os fatores apontados estão:

  • matriz energética majoritariamente renovável; 
  • disponibilidade de biocombustíveis; 
  • proximidade entre polos industriais e portos estratégicos; 
  • potencial de produção de hidrogênio verde; 
  • posição geográfica relevante para o comércio transatlântico. 

Portos como Santos, Pecém, Itaqui, Açu, Rio Grande e Navegantes aparecem entre os terminais com potencial para desempenhar papel importante nessa nova etapa da logística internacional. 

Muito além da sustentabilidade: uma nova lógica para o comércio global

Embora o debate seja frequentemente associado à agenda ambiental, os corredores marítimos verdes também podem gerar impactos econômicos relevantes.

Empresas exportadoras tendem a enfrentar exigências cada vez maiores relacionadas à rastreabilidade, emissões e conformidade ambiental. Em muitos mercados, especialmente na Europa, a competitividade futura poderá estar diretamente ligada à capacidade de comprovar operações mais sustentáveis ao longo de toda a cadeia logística. 

Isso significa que a logística deixa de ser apenas um elo operacional e passa a integrar a estratégia comercial e de posicionamento internacional das empresas.

Onde a logística do futuro começa de verdade

Enquanto muitos ainda enxergam sustentabilidade como uma pauta distante, os corredores marítimos verdes mostram que as próximas transformações do comércio exterior já estão sendo desenhadas agora.

Na Madrigal & Campanilli Logística Internacional, acompanhamos esses movimentos porque acreditamos que as maiores oportunidades surgem antes que elas se tornem tendência de mercado.

Entender para onde estão indo os investimentos, quais rotas ganharão relevância e como novas regulamentações podem remodelar cadeias globais é o que permite transformar informação em vantagem competitiva.

Porque, no fim das contas, a próxima revolução da logística talvez não aconteça nos navios, mas na capacidade de antecipar o que vem pela frente.

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